Como conscientizar e mobilizar um doador, seja ele individual ou corporativo, para profissionalizar suas ações e, assim, ser considerado efetivamente um investidor social? Isto é, não apenas disponibilizar recursos, mas torná-los um projeto estratégico, com fim planejado e bem avaliado.
A questão foi discutida na plenária "Experiências Locais: Situação Atual e Futuro do ISP no Brasil", realizada na manhã de quinta-feira, 3 de abril. Ela expõe as fraquezas das doações ao campo social no país: embora existam exceções, ainda se perpetua o modelo da caridade - pontual, com visão de curto prazo, não profissionalizado e sem preocupação por mensurar os resultados.
Segundo o diretor presidente do Instituto para o Desenvolvimento do investimento Social (IDIS), Marcos Kisil, o filantropo ideal é o que denominou "doador-investidor". Nessa categoria encontram-se os indivíduos de alto poder aquisitivo, que doam com um olho na causa social e o outro no impacto que pode causar.
"É inovador e transformador. Mas esses são uma minoria. No Brasil, ainda é forte a cultura assistencialista, cujos doadores financiam os 'band-aids' das questões sociais, ao focarem nos efeitos e não nas causas", explicou.
As conclusões de Kisil foram amparadas por informações da Pesquisa Ação Social das Empresas, apresentada pela coordenadora da área de responsabilidade social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Anna Maria Peliano. Ela analisou quase 600 mil empresas das cinco regiões do país e concluiu que elas também falham na hora de avaliar o destino dos recursos.
Questionadas se possuem avaliação documentada das ações sociais desenvolvidas, 79% disseram não. "Pelas entrevistas realizadas percebemos que os responsáveis pelos investimentos têm objetivos claros sobre o porquê avaliar e também entusiasmo para fazê-lo. No entanto, o que chama a atenção é que mais da metade dos entrevistados não vê essa mensuração como instrumento de transparência, e se confundem avaliação com número de atendidos", afirmou.
A diretora do Instituto Desiderata, Beatriz Azeredo, analisou a questão, deixando claro que existem muitos motivos a se comemorar. "Quem acompanha o setor percebe que há muitos avanços qualitativos, experiências exemplares, profissionalização".
Mesmo assim, ela questionou: "Por que o mundo empresarial, quando olha para o social, não assume a mesma postura de seus negócios? Devemos sair da zona de conforto e pensar em investimentos estratégicos", argumentou.
Para a presidente da Fundação Iochpe, Evelyn Ioschpe, existe a impressão de que o Brasil está parado há 500 anos na caridade. "A visão de doar sem cobrar resultados está arraigada em nossa sociedade. A mudança de cultura é lenta, mas está acontecendo".
Fonte: Gife |