O número de empresas que desenvolvem algum tipo de ação social para além de seus muros, voltada para a comunidade e não especificamente para seus funcionários, cresceu no Brasil. Ao menos nas regiões Sudeste e Nordeste, onde estão localizadas 70% das empresas brasileiras. É isso que revela a primeira etapa da segunda edição da pesquisa Ação Social das Empresas, apresentada no início da semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O crescimento foi maior entre as empresas do Nordeste, passando de 55% em 1999, para 74%, em 2003. O Estado do Ceará foi o que mais aumentou a participação de suas empresas na área social, apresentando um crescimento de 64%. As empresas no Sudeste subiram de 67% para 71%.
Embora a pesquisa mostre que o número de empresas que participam da área social tenha crescido, isso não significa que o investimento dessas instituições na área social aumentou. Como explica Anna Maria Medeiros Peliano, diretora da área de Estudos Sociais do IPEA, o estudo não mostra se as empresas estão participando mais da área social individualmente. "O que essa primeira etapa da pesquisa mostra é que mais empresas estão fazendo. E isso é diferente de dizer que elas estão fazendo mais. A questão nossa foi mostrar que o percentual de empresas que estão desenvolvendo algum tipo de ação cresceu. Agora, se estão investindo mais, isso vai ser estudado só na segunda etapa", diz.
De acordo com a diretora, na segunda etapa, o estudo pretende verificar que tipo de atividade a empresa desenvolve (assistência, educação, saúde), para quem (criança, idoso, mulher, jovem), se os empregados são envolvidos, se usa o trabalho voluntário, o volume de recursos que são utilizados, se as empresas usam incentivos fiscais, se fazem parcerias com órgãos governamentais, com organizações do terceiro setor ou centros educativos, quais suas motivações para atuar, quais as dificuldades, entre outros. "Será um retrato mais detalhado", resume Anna Peliano. Para isso, já foram enviados questionários às empresas participantes da primeira etapa do estudo.
A primeira etapa da edição 2004 da pesquisa partiu de uma amostra de 4109 empresas privadas, com um ou mais empregados, representando um universo de 500 mil corporações presentes nas duas regiões. Entre julho e outubro de 2004, as empresas foram consultadas por telefone, o que garantiu uma elevada cobertura de respostas.
Aos números: surpresas entre as grandes empresas nordestinas
Comparando a primeira edição da pesquisa, feita entre 1999 e 2001, que observou o comportamento das empresas entre 98 e 2000, com a apresentada agora pelo IPEA, observa-se que, de forma geral, houve um crescimento na participação das empresas na área social. "Foi um crescimento generalizado por região, por postos, por setor de atividades... Cresceu todo mundo. Agora, proporcionalmente, cresceram mais as empresas do Nordeste", afirma Anna Peliano.
Em 1998, 61% das microempresas (que têm entre um e dez empregados) do Sudeste desenvolviam algum tipo de ação social. Em 2003, o número subiu para 70%, o que representa um aumento de 15%. Já entre as grandes empresas (com mais de 500 empregados), o índice subiu de 93% para 96%.
Entre as empresas do Nordeste, a quantidade de microempresas que passou a fazer alguma ação social cresceu 29% (passando de 55% para 71%). Mas o salto maior aconteceu entre as grandes empresas nordestinas. Em 1999, apenas 63% das empresas desenvolviam ações sociais. Em 2003, o número passou para 94%, o que representa um crescimento de 49%.
Anna Peliano diz que essa foi a grande surpresa da pesquisa. "O comportamento das grandes empresas do Nordeste hoje quase se equipara ao comportamento das empresas do Sudeste", afirma. Embora a pesquisa não tenha estudado o porquê desse crescimento, a diretora atribui isso à visibilidade que o tema da responsabilidade social vem ganhando na sociedade e à sensibilização dos empresários, que entenderam a dificuldade de se manter em "ilhas de prosperidades no meio de tanta pobreza". Ela explica que o assunto chegou primeiro no Sudeste e só no começo dos anos 2000 ganhou terreno no Nordeste. "Agora, a gente está vendo vários grupos, fóruns de cidadania, discutindo a participação das empresas na área social. Acho que é um tema que ganhou força", afirma. Além disso, ela diz que é mais fácil crescer quando os índices são menores.
A pesquisa apontou que as empresas dos setores agropecuário e de pesca estão se interessando pela realização de ações sociais. As empresas da construção civil no Nordeste também passaram a desenvolver mais ações. Houve um crescimento de 142% em relação à primeira edição da pesquisa.
Outro ponto interessante levantado foi o indicativo de que, se as empresas não desenvolvem ações sociais, é por falta de dinheiro. 26% das empresas do Nordeste e 29% do Sudeste dizem que não desenvolvem ações porque não têm recursos ou que se tivessem mais recursos, fariam mais. Menos de 5% das empresas afirmaram que a ação social não é papel da iniciativa privada. Segundo Anna Peliano, isso mostra que os empresários reconheceram "a dimensão dos problemas sociais no Brasil e que só o Estado é pouco para conseguir equacioná-los. É preciso que toda a sociedade também dê a sua contribuição. E, portanto, o setor privado precisa e deve dar a sua contribuição".
A diretora do Ipea ainda explica que nas microempresas, de forma geral, predominam as doações eventuais, pontuais. Embora algumas delas desenvolvam projetos bem-estruturados, a maioria dos projetos mais interessantes e permanentes aparece nas grandes empresas.
O estudo revelou também que o tema do combate à fome é entendido como prioritário pelas empresas. Cerca de 100 mil empresas (31% das empresas do Nordeste e 28% do Sudeste que desenvolvem ações sociais) afirmaram ter algum tipo de ação específica para combate à fome, sendo que a maioria (70%) era de doações de alimentos.
Fonte: Setor 3
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