Por volta de cada três meses, o cabeleireiro Aldemir Taylor, de Taguatinga (DF), e um grupo de profissionais da área reúnem-se em locais carentes e cortam, gratuitamente, o cabelo de pessoas da comunidade. Segundo Taylor, esse trabalho é feito por meio da Associação dos Profissionais de Beleza do Distrito Federal, da qual é fundador e presidente, e também envolve distribuição de sopa, donativos e, dependendo do caso, curso em alguma atividade de salão de beleza, garantido o primeiro emprego para uma pessoa da família mais carente entre as atendidas nesses eventos.
A iniciativa é um exemplo do que aponta pesquisa sobre Responsabilidade Socioambiental das Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal, feita pelo biólogo Bruno Quintas, 27 anos, para basear dissertação em mestrado sobre Desenvolvimento Sustentável, na Universidade de Brasília (UnB), tendo como referência as diretrizes desenvolvidas pelo Sebrae e Instituto Ethos para a área.
O resultado surpreendeu Quintas: dos 294 responsáveis por micro e pequenos empreendimentos pesquisados até agora, 82% afirmaram praticar pelo menos uma ação de responsabilidade social, preocupando-se especialmente com suas comunidades e o bem-estar coletivo e com a preservação ambiental. "Mesmo à frente de pequenos empreendimentos e enfrentando dificuldades, estes empresários se preocupam com as outras pessoas e com o meio ambiente", admira-se.
A avaliação do biólogo é que essa preocupação ocorre exatamente porque esses empreendedores vivem de perto a realidade e as dificuldades das suas comunidades. Entre as razões predominantes para a iniciativa apontadas no levantamento, lembra, está a ética pessoal. São o que define como "empresários cidadãos".
A pesquisa - feita com apoio da Empresa Júnior de Sociologia da UnB na aplicação de questionários - mostra outro dado interessante: entre os empresários pesquisados, a tendência é de maior concentração daqueles que praticam alguma ação de responsabilidade social entre os com maior grau de escolaridade. Entre os empresários cidadãos, aqueles com nível superior completo somam 19,10%. Os que têm o ensino médio completo são 49%.
A situação se inverte a partir do ensino médio incompleto para baixo. Nesse nível de escolaridade, 7,50% não praticam qualquer ação de responsabilidade social, contra 6,20% que praticam alguma. Nos do ensino fundamental completo são 24,50% contra 10,40%. Nos com ensino fundamental incompleto a diferença é ainda maior: 24,50% contra 2,90%.
Outro dado apontado na pesquisa: entre os 82% de empresários de micro e pequenos empreendimentos que praticam alguma ação social, há um certo equilíbrio entre gêneros. 53% são homens e 47% mulheres. O dado chamou a atenção de Bruno Quintas.
"A pesquisa foi aplicada apenas junto a proprietários de micro e pequenas empresas e eu não esperava que houvesse tantas mulheres à frente de empresas" diz, explicando que essa tendência é reforçada se forem levados em consideração todos os entrevistados, independente de praticarem ou não alguma ação de responsabilidade social. "Dos 294 pesquisados, 55,1% são homens e 44,9% são mulheres", diz. Isso, avalia, leva a crer que "no Distrito Federal não há discriminação de gênero".
Sucesso
Em abril último, Bruno - que teve como orientador o professor José Aroudo Mota - apresentou sua dissertação que, conta, foi aprovada sem modificações. Ele ainda foi estimulado pela banca examinadora a utilizar o assunto em tese de doutorado. Empolgado com o tema, mesmo preferindo esperar mais um tempo até fazer doutorado, Bruno se prepara para continuar os levantamentos junto às micro e pequenas empresas. Vai aplicar mais 300 questionários, para cumprir a meta estabelecida inicialmente de pesquisar cerca de 600 empresários.
A idéia é escrever artigo sobre o tema de modo a chamar a atenção dos que fazem política pública no País, "para que vejam a importância das micro e pequenas empresas nesse novo paradigma, que é o desenvolvimento sustentável".
Quintas também sonha com a criação de um banco com casos de sucesso de ações sociais praticadas por micro e pequenas empresas, para disseminar o assunto junto aos que não têm essa prática. "Os empresários cidadãos normalmente atuam como lideranças nas suas comunidades e utilizam seus empreendimentos para disseminar essa ética pessoal", explica.
Exemplo
A afirmação do biólogo é confirmada pelo cabeleireiro Aldemir Taylor. Natural de Quitéria, sertão do Ceará, ele conta que veio para Brasília aos 18 anos tentar vida melhor. Hoje, aos 35 anos e com um pequeno salão de beleza, diz que começou as ações de responsabilidade social no salão e levou a idéia para ASP Beleza.
A estratégia, explica, envolve coleta de doações nos salões dos associados e a reunião de um grupo de profissionais em bairro carente previamente selecionado, para cortar cabelo, oferecer orientações de como se vestir e se comportar em uma entrevista de emprego, além de distribuir sopa e os donativos.
Nas reuniões, prossegue Aldemir, normalmente também é selecionada uma pessoa da família mais carente, para fazer curso de cabeleireiro ou outra atividade de salão de beleza e oferecido o primeiro emprego em um dos salões associados à entidade.
"Há garotos que viviam na rua, cheirando cola e que mudaram de vida. Tudo depois que foram arrumados, vestidos, calçados e orientados em uma das nossas atividades", exemplifica Taylor, explicando que há dias em que seu grupo chega a atender até 350 pessoas. E explica de onde vem a energia. "Passei muitas dificuldades e sei como é importante para uma pessoa nessa situação ter uma ajuda, uma oportunidade".
Fonte: Agência Sebrae de Notícias
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