Política de Boa Vizinhança em ação
Por Thais Sena Schettino
Anna Maria Medeiros Peliano está à vontade para falar sobre a atuação das empresas na área social. À frente do segundo levantamento do tema feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - Pesquisa Ação Social das Empresas, Anna não esconde a satisfação de poder comparar os dados obtidos nos dois estudos. "A pesquisa tem o mérito de permitir acompanhar a evolução da questão. Dois anos são bons, mas ainda é pouco para construir uma série. Mas, já é um avanço ." O primeiro levantamento foi feito entre 1998-1999. Com essa segunda edição, realizada em 2003, inicia-se a construção de uma série histórica sobre o comportamento das empresas na área social nas regiões Sudeste e Nordeste.
O estudo, que inclui desde pequenas doações eventuais a pessoas ou instituições até grandes projetos mais estruturados, leva em consideração um conceito bem amplo de ação social empresarial. Para o levantamento considera-se qualquer atividade que as empresas realizam - em caráter voluntário, para o atendimento de comunidades nas áreas de assistência social, alimentação, saúde, educação - uma ação social.
Os dados já analisados mostram que, no Sudeste, de um universo de 420 mil empresas privadas com um ou mais empregados em 2003, 71% realizavm, em caráter voluntário, algum tipo de ação social para as comunidades. No Nordeste, o total de empresas era de 82 mil; dessas, 74% atuavam na área social.
No Sudeste, Minas Gerais é o estado que se destaca, com 81% das empresas dizendo realizar voluntariamente atividades sociais. Já no Nordeste, é a Bahia que permanece à frente com 76%. Ainda no Sudeste, no Rio de Janeiro houve um crescimento: entre 1998 e 2003, a proporção de empresas que realizaram ações sociais aumentou em 17%, passando de 59% para 69%. Esse ritmo de crescimento é mais de duas vezes superior ao observado para a região como um todo, que foi de 6%.
Nesta edição, questionou-se às as empresas se elas desempenhavam alguma atividade de combate à fome. É expressivo o número de empresas que respondeu positivamente: 100 mil empresas, somando-se as duas regiões. No Nordeste, a afirmação correspondeu a 31% do total de empresas atuantes naquele ano; no Sudeste, esse percentual foi um pouco menor, de 28%.
Em ambas as regiões, cerca de um quarto das empresas declara não realizar qualquer ação social para a comunidade (26% no Nordeste e 29% no Sudeste). A maior parte delas - qualquer que seja a região, estado, porte ou setor estudados - alega a falta de verbas .
Cidadania-e: A pesquisa mostra que houve um crescimento da participação de empresas que realizam investimentos sociais na região Nordeste. Isso foi uma surpresa? É possível especular por que houve esse crescimento?
Anna Peliano: A pesquisa mostra que o número de empresas do Nordeste cresceu significativamente. Foi uma surpresa a dimensão do crescimento. O fato é que quando fizemos a primeira pesquisa e perguntamos se pretendiam aumentar o investimento social, as do Nordeste foram mais otimistas, 70% disseram que sim. Portanto, já achávamos que ia crescer, mas não sabíamos quanto.
O crescimento também é o reflexo de um segundo momento, que já vem ocorrendo no Sul e Sudeste, as áreas de ponta que entraram primeiro como investidores. Depois o Nordeste acompanhou. Houve também a movimentação dos meios de comunicação, das entidades de classe para discutir o tema, seminários, e um debate grande.
Cidadania-e: O Sudeste ficou atrás da região Nordeste quanto ao número de empresas que realiza investimentos sociais? As empresas do Sudeste estão investindo menos ou chegamos a um ponto de estabilidade?
Anna Peliano: É difícil dizer que chegou num ponto limite. Não foi exatamente isso que observamos. O que vimos é que o ano 2003 foi de crise, economicamente mais difícil, com menos estímulos extras. No entanto, percebemos que ainda há possibilidade de crescimento no número de empresas que praticam ações sociais. Fizemos uma pergunta para as que não atuam na área social, dentro do universo das que hoje não desenvolvem ações sociais, apenas 10% disseram que não vão atuar de jeito nenhum; que isso não é papel da empresa. Ou seja, é um grupo muito pequeno de empresas que, independente do cenário econômico, não irão investir no social.
Fonte: Cidadania-e
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