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Colaboração científica: o caso de empresas farmacêuticas e de biotecnologia cubanas
Publicado em 18/06/2025 - Última modificação em 26/09/2025 às 09h11
Tulio Chiarini[1]
Colaboração científica: benefícios e desafios
A colaboração entre cientistas de diferentes disciplinas e países é peça-chave para lidar com os desafios crescentes da ciência e da sociedade. A coautoria de artigos, prática hoje consolidada, surgiu como reflexo da profissionalização da ciência, evoluindo de maneira distinta entre as diversas áreas do conhecimento. Na segunda metade do século XVIII, os franceses dominavam estudos colaborativos e as publicações no campo da astronomia eram as que possuíam mais colaborações. Ingleses e alemães só adotariam tal prática no século XIX, à medida que suas instituições científicas se estruturavam e sua pesquisa também se tornava uma atividade profissional.
Desde então, a ciência produzida em equipes não parou de se expandir. Entre 1900 e 2020, a coautoria acadêmica seguiu uma trajetória de expansão contínua e global, sem sinais de desaceleração. Esse movimento reforça a ideia de que a colaboração é indispensável para o avanço do conhecimento técnico-científico.
A globalização e o advento da internet aceleraram a transmissão do conhecimento, ampliando os canais de comunicação. Esse cenário expandiu as oportunidades de cooperação, mas obstáculos persistem, entre a falta de financiamento, restrições ao compartilhamento de dados e diferenças culturais. Pesquisadores de países emergentes também relatam dificuldades adicionais, como preconceitos relacionados ao seu vínculo institucional ou nacionalidade, bem como limitações impostas por políticas nacionais.
Mesmo com dificuldades, os benefícios da colaboração são reconhecidos e respaldados por evidências empíricas. Estudos mostram que a coautoria com pesquisadores altamente citados gera vantagens para jovens cientistas, impulsionando suas carreiras. Artigos com múltiplos autores também tendem a ter maior repercussão e receber mais citações em diversos contextos, ampliando a visibilidade da pesquisa na comunidade científica.
Cooperação científica cubana: o caso da BioCubaFarma e do CECMED
Com apenas 2% da população e do PIB da América Latina e do Caribe[2], Cuba mantém desempenho científico expressivo, sobretudo no campo da saúde — a área respondeu por 73% dos artigos científicos publicados por instituições cubanas entre 1996 e 2024, segundo dados do Scimago Journal & Country Rank. O país também ocupa a 8ª posição regional em volume de publicações, ampliando sua cooperação científica internacional, com vínculos registrados com cerca de 80% dos países do mundo.
Como parte do esforço para compreender a cooperação científica na área da saúde de Cuba, apresenta-se a evolução da coprodução de artigos do Centro para el Control Estatal de Medicamentos, Equipos y Dispositivos Médicos (CECMED) e de algumas instituições vinculadas à BioCubaFarma.
A BioCubaFarma é um grupo que reúne empresas cubanas de biotecnologia e farmacêutica, com foco em pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização de medicamentos e tecnologias de saúde. Seu principal objetivo é melhorar a saúde da população cubana e gerar bens e serviços exportáveis.
A holding reúne empresas especializadas em áreas distintas, com destaque para os Laboratórios AICA, dedicados à produção de medicamentos genéricos líquidos, e MedSol, especializado em medicamentos genéricos sólidos. O grupo ainda inclui o Instituto Finlay de Vacunas (IFV), responsável pelo desenvolvimento de vacinas, entre as quais a Soberana, contra o Sars-CoV-2, agente causador da Covid-10, o Centro de Inmunología Molecular (CIM), desenvolvedor da vacina Abdala, também para a mesma finalidade, o Centro de Investigación y Desarrollo de Medicamentos (CIDEM), dedicado à pesquisa, ao desenvolvimento e à inovação de produtos farmacêuticos, e o Centro de Ingeniería Genética y Biotecnología (CIGB), que realiza investigação, desenvolvimento e comercializa novas aplicações biotecnológicas. Já a Combiomed se concentra no desenvolvimento de dispositivos médicos, enquanto a MediCuba gerencia as importações e exportações do grupo. Essas empresas, juntamente com o CECMED, que exerce funções regulatórias e de controle sanitário, atuam no complexo econômico-industrial de saúde cubano e em iniciativas internacionais de cooperação científica[3], conforme discutido a seguir.
A partir dos dados das bases Web of Science e Scopus[4], foram identificados 219 artigos publicados entre 1997 e 2024 por autores vinculados a essas instituições, após remoção de duplicidades e filtragem de manuscritos pertinentes (Gráfico 1). Esses manuscritos foram assinados por 2.414 autores[5], uma média de 11 autores por publicação — característica comum em estudos na área da saúde, sobretudo em ensaios clínicos, que exigem colaboração entre múltiplas equipes. Em alguns casos, esse número é ainda maior: um dos artigos sobre uma candidata à vacina contra a Covid-19 contou com 45 autores.

Gráfico 1 – Manuscritos publicados anualmente e acumulado por pesquisadores vinculados ao grupo BioCubaFarma e/ou CECMED.
Fonte: Web of Science e Scopus. Elaboração do autor.
De olho no primeiro autor
Identificar o país de origem de artigos científicos é um desafio, especialmente quando estes são assinados por muitos autores com diferentes vínculos institucionais. Uma abordagem possível é considerar a afiliação do primeiro ou do último autor. Na área da saúde, a ordem de autoria segue uma lógica particular. Em geral, o primeiro autor costuma ser o pesquisador com maior contribuição para a pesquisa, incluindo a redação do manuscrito. Já o último autor costuma ser um pesquisador sênior, muitas vezes o orientador da equipe, embora sua participação no estudo possa variar.
Seguindo o critério de análise baseado no vínculo institucional do primeiro autor, observa-se que 88% dos artigos identificados têm primeiros autores ligados a instituições cubanas. Em seguida, aparecem primeiros autores vinculados a instituições espanholas (3%) e chinesas (3%).
Entre os 219 manuscritos, 60% são de primeiros autores vinculados a alguma instituição do grupo BioCubaFarma: 15% estão vinculados ao CIDEM, seguido do CIGB (14%), do IFV (12%) e do CIM (9%).
Olhando todos os 2.414 autores
Uma abordagem alternativa consiste em analisar o país sede das instituições dos 2.414 autores dos 219 artigos, independentemente da ordem de autoria. Nesse caso, identificamos 297 instituições distintas, além do CECMED e de 18 instituições ligadas ao Grupo BioCubaFarma, totalizando 316 instituições. Para simplificação, considerou-se apenas a primeira afiliação institucional de cada autor, o que significa que o número de instituições pode ser ainda maior, dado que os pesquisadores podem ter múltiplas vinculações.
Nesse contexto, 82% dos autores estão em instituições sediadas em Cuba. Excluindo as instituições cubanas, observa-se que 32% dos pesquisadores estão ligados a instituições sediadas na América Latina e no Caribe, 23% na Europa e 20% na Ásia (Gráfico 2), com destaque para China (15.6%) e Brasil (10.2%).

Gráfico 2 – País das instituições de primeiro vínculo de todos os 2.417 autores, sem Cuba.
Fonte: Web of Science e Scopus. Elaboração do autor. Nota: códigos de país de três letras definidos na ISO 3166-1.
Coprodução de artigos com a China
As publicações em coautoria de autores vinculados a instituições cubanas e autores de instituições chinesas (15.6% dos vinculados a instituições não cubanas) envolvem instituições como Shanghai University, Nanjing Normal University e Sichuan University. Além disso, os dois países criaram o China-Cuba Biotechnology Joint Innovation Center (CCBJIC) em Yongzhou, focado em biotecnologia e os artigos coproduzidos com o CCBJIC envolveram tanto o CIGB quanto o CIM.
Um dos artigos em coautoria com o CIGB envolve o desenvolvimento de uma vacina nasal com fragmentos do SARS-CoV-2 para gerar respostas imunológicas mais amplas. Além disso, foram produzidas partículas de proteína HBV com fragmentos do vírus, testadas como candidatas a vacina, também publicado em artigo em coautoria com o CIGB. A formulação contendo dois antígenos da variante Delta, igualmente em coautoria com pesquisadores vinculados ao CIGB, induziu resposta imunológica em camundongos e mostrou reatividade cruzada com outros dois coronavírus em soro de doadores vacinados.
A produção de artigos em coautoria entre Cuba e China também inclui empresas como Yongzhou Zhonggu Biotechnology, Yongzhou Development and Construction Investment, Hunan PRIMA Drug Research Center e Chengdu Olisynn Biotech.
Coprodução de artigos com o Brasil
Entre os autores vinculados a instituições não cubanas, 10.2% são de instituições brasileiras. No meio acadêmico, estão as universidades federais da Bahia (UFBA), do Mato Grosso (UFMT), do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Santa Catarina (UFSC), de Santa Maria (UFSM) e a Universidade de Brasília (UnB), além das estaduais de Santa Cruz (Uesc), na Bahia, e a Universidade de São Paulo (USP). No setor hospitalar, o Hospital Israelita Albert Einstein figura entre as instituições coautoras, enquanto na regulação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Entre as brasileiras, o maior número de autores se vincula à UFRGS (57%) os quais participaram de estudos investigando o potencial neuroprotetor da molécula JM-20 em células do cérebro de ratos, bem como sua capacidade de proteger a memória em um modelo de déficit cognitivo e seu papel na preservação das mitocôndrias, prevenindo a morte de células nervosas após um episódio de isquemia. Esses estudos reforçam o potencial da molécula como uma aliada no combate a doenças neurodegenerativas.
Ao todo, 45 pesquisadores brasileiros contribuíram para a produção de 16 artigos em coautoria com as instituições cubanas analisadas. Destes, 10 tiveram como primeiro autor um pesquisador vinculado ao CIDEM, e outros dois foram liderados por autores ligados à Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e à Organização Mundial de Saúde (OMS), abordando temas voltados à avaliação regulatória. Dois artigos adicionais foram assinados por primeiros autores da Universidad de Oriente e Universidad de La Habana, em Cuba; os dois restantes tiveram liderança da Universidad de Costa Rica e Normandie Université, da França – este último também contou com a participação do Hospital Israelita Albert Einstein.
Nenhum dos artigos identificados teve como primeiro autor um pesquisador de instituição brasileira, e não foram encontrados trabalhos com participação de instituições de pesquisa como o IFV, CIM ou CIGB.
Coprodução mesmo com embargo
Apesar do embargo comercial histórico imposto pelos Estados Unidos à Cuba, cientistas dos dois países colaboram em áreas estratégicas como biotecnologia e saúde pública, com um esforço mútuo de "diplomacia pela ciência" e "ciência pela diplomacia". Estudo publicado na PLOS One indica um crescimento da colaboração científica entre os dois países nos últimos 40 anos. Os resultados sugerem que o acordo firmado em 1980 entre a Smithsonian Institution e a Academia de Ciências de Cuba contribuiu para esse aumento. Além disso, a política de reaproximação com Cuba adotada pelo ex-presidente estadunidense Barack Obama em 2015 fortaleceu a produção científica conjunta, superando as publicações colaborativas de todas as administrações presidenciais anteriores. Isso facilitou a mobilidade de pesquisadores para reuniões internacionais e ampliou as perspectivas de futuras parcerias.
Os artigos identificados da CECMED e das instituições ligadas ao Grupo BioCubaFarma corroboram a existência de publicação conjunta entre Cuba e Estados Unidos. As publicações em coautoria (2.7% dos vinculados a instituições não cubanas) envolveram a North Carolina State University, Thomas Jefferson University, University of Arizona, University of California, University of Pittsburgh e o Hospital Pediátrico de Cincinnati.
Por fim
A cooperação científica entre o grupo BioCubaFarma, o CECMED e instituições de países como China, Brasil e Estados Unidos tem superado questões geopolíticas, ainda que persistam diferenças significativas, tanto em termos do percentual das cooperações, quanto em relação às instituições envolvidas nas parcerias estabelecidas. Enquanto CIGB, IFV, CIM e CENPALAB desenvolvem novos conhecimentos em parceria com instituições chinesas, refletidos na publicação de artigos científicos, as colaborações com universidades brasileiras concentram-se exclusivamente no CIDEM. Além disso, instituições do grupo BioCubaFarma também coproduzem publicações científicas com empresas chinesas — uma dinâmica que não se observa nas publicações científicas com o Brasil ou com os Estados Unidos .
O fortalecimento das redes internacionais de produção de conhecimento não só amplia o impacto da ciência cubana, como também abre caminhos para novas colaborações e avanços tecnológicos com benefícios para Cuba e para a sociedade global.
[1] Analista em Ciência e Tecnologia do CTS/Ipea.
[2] Dados do Banco Mundial.
[3] A decisão de focar nessas instituições se deve ao fato de elas terem sido visitadas durante uma missão institucional de pesquisadores do Ipea, realizada em dezembro de 2024, com suporte operacional da Embaixada Brasileira em Havana e financiamento do Ministério da Saúde. A missão também incluiu uma visita ao Ministerio de la Salud Pública de Cuba.
[4] A base WoS foi selecionada por incluir a SciELO, que indexa um volume significativo de periódicos científicos da América Latina. Além disso, optou-se por incluir a base Scopus devido à sua ampla cobertura internacional e complementaridade em relação à WoS.
[5] A busca foi realizada em 13/02/2025, utilizando o seguinte string e operadores booleanos: TITLE-ABS-KEY ((Biocubafarma OR BioCubaFarma) (Affiliation) OR (CIDEM OR "Centro de Investigación y Desarrollo de Medicamentos") (Affiliation) OR ("MEDSOL" OR "Laboratorios MEDSOL") (Affiliation) OR ("Finlay Institute" OR "Instituto Finlay de Vacunas" OR "Finlay Institute of Vaccines")(Affiliation) OR (COMBIOMED OR "Empresa COMBIOMED") (Affiliation) OR ("Centro de Inmunología Molecular" OR "CIM") (Affiliation) OR (" Medicuba" OR "Empresa Medicuba") (Affiliation) OR ("Centro para el Control Estatal de Medicamentos, Equipos y Dispositivos Médicos" OR CECMED) (Affiliation) OR ("Laboratórios Farmaceuticos AICA" OR "AICA Laboratories") (Affiliation) AND Proceeding Paper OR Article (Document Types)). A busca inicial retornou 1.070 manuscritos. Após a remoção de DOIs duplicados e registros sem DOI, foram eliminados títulos repetidos, resultando em 512 artigos. Em seguida, foram excluídos documentos sem ao menos um autor vinculado a uma instituição cubana, pois algumas siglas, como CIM, estavam associadas a instituições estrangeiras, como o Center for Infectiology Münster (CIM) da University of Münster (Alemanha), o Centro de Iniciativas Democráticas (CIDEM) do Panamá e o Centro Internacional de Entrenamiento e Investigaciones Médicas (CIDEIM) da Colômbia. Ressalta-se, ainda, que algumas siglas são compartilhadas por instituições cubanas, como no caso de “CIDEM”, que também designa o Centro de Investigación y Desarrollo de Estructuras y Materiales. Com essa filtragem, o número de artigos foi reduzido para 272. Além disso, foram descartados artigos que, embora identificados na busca, não listavam as instituições cubanas destacadas como afiliações institucionais dos autores. Observou-se ainda que alguns artigos que apenas mencionavam essas instituições foram incluídos automaticamente pelas bases Scopus e WoS, mas, por não atenderem aos critérios de afiliação, foram removidos da análise chegando a 222 manuscritos pertinentes. Três artigos foram ainda excluídos por ter apenas um autor, chegando a 219. Por fim, ao se utilizar o termo “BioCubaFarma”, outras instituições vinculadas ao grupo foram identificadas, incluindo o Centro Nacional de Biopreparados (BioCen), Centro de Neurociencias de Cuba (CNEURO), Centro Nacional para la Producción de Animales de Laboratorio (CENPALAB), Empresa de Tecnologías de la Información (ETI), LABIOFAM S.A., Laboratórios Farmacéuticos Oriente e Centro de Histoterapia Placentaria (Hisplacen).
[6] Esse número pode estar subestimado, já que alguns manuscritos mencionam grupos de pesquisa entre os coautores, como o SOBERANA Research Group, ABDALA Research Group, ISMAELILLO Clinal Trial Group e Havana-Pneumococci Clinical Group.
* Este artigo faz parte de uma série sobre instituições do setor farmacêutico de Cuba.
** Este trabalho foi financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Termo de Execução Descentralizada (TED) n. 06, de 2022.
*** O autor agradece ao pesquisador Vitor Marinho, bolsista do Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset) do Ipea, por auxiliar na sistematização dos dados.
* Esse texto faz parte de uma série de artigos sobre instituições farmacêuticas cubanas realizados a partir de visitas, entrevistas e pesquisas complementares, e financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Termo de Execução Descentralizada (TED) n. 06, de 2022.
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