Artigo

Ciência contra o desmatamento

Dados do RAD2025 evidenciam o papel cada vez mais estratégico da ciência e tecnologia (C&T) no monitoramento ambiental no Brasil

Rodrigo Andrade
Pesquisador-bolsista no Ipea
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Pela primeira vez desde 2019, a área total de vegetação nativa desmatada no Brasil ficou abaixo de 1 milhão de hectares (ha) em um único ano. Segundo dados do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD2025), divulgado em maio pela rede de monitoramento MapBiomas, foram desmatados 984.794 ha em 2025, 20,6% a menos que 2024.

Apesar da queda, o ritmo de destruição continua elevado. Em média, o Brasil perdeu 2.698 ha de vegetação nativa por dia em 2025, aproximadamente 112 ha por hora. É como se 17 parques do Ibirapuera, maior parque urbano da cidade de São Paulo, fossem desmatados diariamente. No Cerrado, a perda chegou a 1.482 ha por dia; na Amazônia, o desmatamento atingiu 792 ha diários, o equivalente à derrubada de cerca de cinco árvores por segundo.

Amazônia e Cerrado responderam juntos por mais de 84% de toda a área desmatada no país em 2025. O último segue como o bioma com a maior área desmatada: 540.614 ha, concentrando sozinho 54,9% do desmatamento no país, apesar da queda de 16,9% em relação a 2024.

Na Amazônia, foram desmatados 289.478 ha, retração de 23,5% frente ao ano anterior. O Pantanal apresentou a maior redução proporcional entre todos os biomas: a área desmatada caiu 48,4% em relação a 2024, totalizando 12.260 ha perdidos em 2025.

A expansão agropecuária segue como principal vetor de pressão, respondendo por 99% do desmatamento registrado em 2025. Também no último ano, 99% da área desmatada associada ao garimpo concentrou-se na Amazônia, sobretudo no Pará. Já o desmatamento associado à expansão urbana cresceu 7% em relação a 2024, concentrando-se principalmente no Cerrado e na Amazônia, que juntos responderam por mais de 60% da perda de vegetação nativa vinculada à urbanização.

Papel estratégico da C&T

Para além do cenário de relativa retração do desmatamento no país, os dados do RAD2025 evidenciam o papel cada vez mais estratégico da ciência e tecnologia (C&T) no monitoramento ambiental no Brasil. Sistemas de sensoriamento remoto, imagens de satélite e plataformas de análise de dados tornaram possível acompanhar quase em tempo real o avanço da degradação ambiental em diferentes regiões e biomas, identificando padrões, vetores de pressão e áreas críticas de destruição da vegetação nativa.

Em um contexto de agravamento das mudanças climáticas, ferramentas desse tipo se tornam fundamentais não apenas para revelar a dimensão do problema, mas também para orientar políticas públicas, fortalecer ações de fiscalização e ampliar a capacidade de resposta a um dos principais motores de emissão de gases de efeito estufa. O caso do MapBiomas ajuda a ilustrar como avanços científicos e tecnológicos vêm transformando a capacidade de monitorar e compreender as dinâmicas de uso da terra no país.

O MapBiomas não emite avisos em tempo real de desmatamentos, mas valida e refina alertas gerados por outras plataformas, confirmando, por meio de imagens de alta resolução de diferentes satélites, se houve supressão de vegetação nativa em determinada área.

A rede — uma iniciativa do Observatório do Clima, organização não governamental que reúne universidades, empresas de tecnologia e entidades da sociedade civil brasileira — começou a produzir mapas e dados sobre a evolução do uso da terra no país em 2015, com base em imagens de sensoriamento remoto analisadas na plataforma Google Earth Engine.

Em 2019, lançou um projeto específico para acompanhar a supressão de vegetação nativa no território nacional: o MapBiomas Alerta, que valida e refina avisos de desmatamento emitidos por diferentes sistemas para todos os biomas do Brasil, cruzando essas informações com dados de vários bancos de dados públicos, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef), para produzir, de forma aberta e gratuita, laudos públicos para cada área com vegetação suprimida.

Um dos sistemas que alimenta o MapBiomas Alerta é o Programa de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Criado em 1988, o Prodes é a mais antiga iniciativa de monitoramento, por sensoriamento remoto e imagens de satélite, da taxa anual de desmatamento da floresta nativa na Amazônia Legal, região que se espalha por nove estados e abrange toda a Amazônia brasileira, além de 37% do Cerrado e 40% do Pantanal.

O sistema utiliza imagens dos satélites Landsat 8 e 9, da agência espacial norte-americana (Nasa) e do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS); Sentinel, da Agência Espacial Europeia (ESA); e CBERS 4 e 4A, projeto conjunto do Brasil com a China.

A partir de 2004, o Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter), também do Inpe, passou a funcionar como complemento ao trabalho do Prodes, emitindo alertas diários sobre trechos da floresta que estão perdendo cobertura vegetal.

Os avisos são destinados aos órgãos de fiscalização ambiental, que podem atuar na repressão ao desmatamento a partir dessas informações. Eles também são utilizados pelo MapBiomas na produção de laudos semanais, depois consolidados em seu relatório anual do desmatamento.

A metodologia do Deter foi aprimorada ao longo dos anos. Entre 2004 e 2015, o sistema utilizava dados dos satélites Terra, da Nasa, e CBERS-2B, parceria entre Brasil e China, com resolução espacial de 250 metros (m).

Com essas imagens, era possível emitir alertas apenas para áreas mínimas de 25 ha, mas o sistema não conseguia diferenciar áreas totalmente desmatadas de regiões em processo gradual de degradação. Atualmente, o sistema emite alertas para áreas mínimas de 3 ha, separando os registros em duas categorias: desmatamento e degradação.

Outro sistema que ajuda a alimentar o MapBiomas é o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), lançado em 2008 pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em Belém, com o propósito de monitorar mensalmente a supressão de vegetação nativa e a degradação florestal na Amazônia Legal. O sistema registra o corte raso da floresta e a degradação da vegetação em áreas a partir de 1 ha com base em imagens do Landsat 8 e 9, Sentinel 1A e 1B (ambos com pixel de 20 m) e Sentinel 2A e 2B (pixel de 10 m).

Após cruzar as informações desses sistemas com bases de dados públicas, o sistema do MapBiomas Alerta qualifica o desmatamento e produz um laudo técnico. Quando há evidências suficientes de remoção da vegetação, utiliza imagens de sensoriamento remoto da rede privada de satélites Planet, com resolução espacial de 3,7 m.

Os mosaicos de imagens dos satélites Planet passaram a integrar o mapa base do MapBiomas em 2021. Com isso, a iniciativa tornou-se a primeira no Brasil a disponibilizar gratuitamente esse tipo de material em alta resolução para o público geral.

Nos últimos anos, essas tecnologias vêm sendo aprimoradas com sistemas de inteligência artificial (IA) e aprendizado de máquina. Caso do SAD, que até pouco tempo utilizava um algoritmo simples para descartar áreas sem indícios de desmatamento. Em seguida, uma equipe do Imazon analisava manualmente as imagens restantes, um processo que demandava muitas horas de trabalho.

Em 2024, com a adoção de um algoritmo de IA desenvolvido pelos próprios pesquisadores do instituto, o SAD passou a identificar automaticamente as áreas com maior probabilidade de desmatamento. Segundo o Imazon, a ferramenta alcança uma taxa de acerto de 95% e reduz em cerca de 30% o tempo necessário para análise especializada. O resultado: uma tarefa que antes consumia 1.004 horas passou a ser realizada em 705 horas.

O Inpe também vem investindo em estudos voltados ao uso de IA em seus projetos. Prova disso é o Laboratório de Inteligência Artificial para Aplicações Aeroespaciais e Ambientais, criado em 2024 para consolidar o trabalho da Coordenação de Pesquisa Aplicada e Desenvolvimento Tecnológico, dedicada ao uso de IA nas áreas de sensoriamento remoto, previsão de tempo e clima, astrofísica, geofísica espacial e engenharia aeroespacial.

A coexistência de diferentes sistemas de monitoramento, e seu uso integrado com sistemas de sensoriamento, tende a fortalecer a capacidade do país de compreender e enfrentar a degradação ambiental. Uma iniciativa importante nesse sentido é o Brazil Data Cube (BDC), projeto do Inpe que produz dados a partir de grandes volumes de imagens de sensoriamento remoto de média resolução para todo o território nacional, além de desenvolver uma plataforma computacional para processar e analisar esses dados usando algoritmos de IA, aprendizado de máquina e análise de séries temporais de imagens.

Os dados produzidos no projeto BDC incluem coleções de dados prontos para análise, cubos de dados multidimensionais e mosaicos a partir de imagens dos satélites CBERS 4 e 4A, Sentinel-2 e Landsat-8. A plataforma computacional é composta ainda por serviços web, aplicativos de software e ambientes de computação interativa.

A C&T também se faz presente em outra iniciativa importante: o Programa BiomasBR, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Assim como o MapBiomas, a ferramenta se baseia na análise de imagens de sensoriamento remoto de diferentes resoluções espaciais e temporais. Entre os sistemas utilizados estão o Prodes, o Deter e o TerraClass, que produz mapas de uso e cobertura da terra para áreas de supressão de vegetação nativa previamente identificadas pelo Prodes, disponibilizando dados bianuais para a Amazônia Legal e o Cerrado.

O TerraClass foi criado em 2010 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo Inpe para atender à demanda do governo federal por informações sobre os usos e a cobertura da terra em áreas desmatadas da Amazônia Legal. O objetivo era fornecer subsídios para o planejamento de políticas voltadas à produção agropecuária sustentável, à conservação da biodiversidade e à manutenção dos serviços ecossistêmicos. A partir de 2015, no entanto, o sistema foi ampliado para incluir o mapeamento do bioma Cerrado.

Ao combinar metodologias, escalas de análise e objetivos distintos, essas iniciativas produzem informações complementares que aumentam a confiabilidade dos dados e ampliam o conhecimento sobre a dinâmica de ocupação e transformação dos territórios. Além de subsidiar ações de fiscalização e controle ambiental, esses sistemas fornecem evidências essenciais para a formulação de políticas públicas, o planejamento territorial e a avaliação da efetividade das medidas adotadas para conter a perda de vegetação nativa.

Combustível para pesquisa

Com o tempo, os dados produzidos por estas e outras iniciativas tornaram-se também uma importante base de informação utilizada por universidades e institutos de pesquisa brasileiros e internacionais para investigar transformações no território nacional, especialmente mudanças no uso da terra, avanço do desmatamento, degradação ambiental e seus impactos climáticos, hidrológicos, ecológicos e sociais.

Um dos exemplos mais conhecidos é o desenvolvimento de mapas sobre a idade e a regeneração de florestas secundárias no Brasil. Pesquisadores utilizaram séries históricas do MapBiomas para produzir um conjunto inédito de mapas com 33 anos de regeneração florestal no país, permitindo estimar o potencial de captura de carbono dessas áreas e sua contribuição para políticas climáticas e de restauração ecológica.

Outro caso envolve um estudo conduzido por pesquisadores das universidades federais do Rio Grande do Sul e do Rio Grande que utilizou dados do MapBiomas para analisar transformações espaciais e temporais ocorridas entre 1985 e 2018 em todos os biomas do país. O objetivo foi compreender como a expansão agropecuária e outras atividades humanas alteram paisagens naturais e afetam serviços ecossistêmicos. 

Os dados do MapBiomas também vêm sendo aplicados em pesquisas locais sobre impactos ambientais e sociais. Um estudo realizado em Pernambuco utilizou informações da rede para investigar a dinâmica espaço-temporal do uso da terra no Parque Estadual Mata da Pimenteira, analisando mudanças ambientais e seus efeitos sociais na região semiárida.

Da mesma forma, por ser uma iniciativa de código aberto e disponibilizar seus dados gratuitamente, o projeto BDC tem contribuído para o desenvolvimento de novas pesquisas voltadas à produção de mapas de uso e cobertura da terra com cubos de dados e técnicas de aprendizado de máquina, e ao desenvolvimento de ferramentas capazes de processar grandes volumes de imagens de satélite de forma mais rápida e eficiente, ampliando a capacidade de análise de dados ambientais em escala nacional.

Considerações finais

Esses exemplos indicam que o Brasil conseguiu construir um dos mais abrangentes sistemas de monitoramento ambiental do mundo, combinando diferentes ferramentas, metodologias e instituições para acompanhar as transformações em seus biomas. Além de apoiar ações de fiscalização e controle, essas iniciativas geram também informações essenciais para a pesquisa científica, a formulação de políticas públicas e o planejamento territorial.

A disponibilidade contínua de dados confiáveis e comparáveis ao longo do tempo tem sido fundamental para compreender a dinâmica do desmatamento, avaliar seus impactos e orientar ações voltadas à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais. O desafio é manter e aprimorar essa capacidade, a partir de investimentos estáveis e previsíveis, e equipes qualificadas e dedicadas, visando garantir a continuidade das séries históricas e o desenvolvimento de novas ferramentas e metodologias.

As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Ministério do Planejamento e Orçamento.