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Cresce o número de chineses liderando projetos científicos internacionais

Segundo estudo publicado na PNAS, eles já lideram mais da metade dos projetos com o Reino Unido, podendo liderar um número equivalente de projetos com a Europa e os Estados Unidos nos próximos anos

Rodrigo Andrade
Pesquisador-bolsista no Ipea
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O número de cientistas chineses em posições de liderança de empreendimentos científicos internacionais está crescendo. Eles agora lideram mais da metade dos projetos de pesquisa desenvolvidos com o Reino Unido e devem liderar um número equivalente de projetos com a Europa e os Estados Unidos nos próximos anos, segundo estudo publicado em fins de outubro na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Para entender como a liderança científica internacional está mudando, os pesquisadores analisaram dados de autoria de quase seis milhões de publicações científicas, com foco na seção “contribuição dos autores”, que descreve o papel de cada autor na elaboração do paper. Nos casos em que essas declarações não estavam disponíveis, a equipe criou um modelo capaz de prever funções de liderança com base na experiência dos autores, em seus históricos de citações e nas ideias que traziam de trabalhos anteriores.

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Os autores que haviam idealizado, projetado e conduzido o estudo — ou que haviam oferecido mentoria — foram classificados como líderes; estudantes, profissionais que prestaram suporte técnico e aqueles que realizaram experimentos sob orientação foram classificados como seguidores. A partir disso, os pesquisadores criaram dois parâmetros para avaliar mudanças na liderança científica em parcerias bilaterais: a primeira, chamada lead share, descrevia o número de pessoas em funções de liderança de um determinado país; a segunda, lead premium, referia-se à proporção entre líderes e seguidores em um artigo.

Os pesquisadores constataram que a lead share da China em estudos conduzidos em colaboração com os Estados Unidos aumentou de 30% em 2010 para 45% em 2023. Já o lead premium chinês tem avançado de forma mais lenta. Segundo os autores do artigo, cientistas chineses ainda ocupam funções de apoio em muitos projetos, embora tenham mais chances de assumir a liderança quando colaboram com grupos do Reino Unido e da Europa.

A lead share da China alcançou a do Reino Unido em 2019; a expectativa é que ela se iguale à da Europa entre 2025 e 2027 e à dos Estados Unidos entre 2027 e 2028.

Os autores do trabalho sugerem que o crescimento do número de chineses em posições de liderança em projetos científicos internacionais resulte dos crescentes investimentos da China na formação de jovens pesquisadores nos países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota, estratégia global de desenvolvimento de infraestrutura adotada pelo governo chinês em 2013 com o intuito de investir em mais de 150 países e organizações internacionais.

No entanto, a situação chinesa segue desafiadora em áreas tecnológicas cruciais, como inteligência artificial (IA), semicondutores e energia. O país enfrenta desafios estruturais importantes, entre eles restrições impostas pelo governo norte-americano à venda de chips de IA da Nvidia — em resposta, o país recentemente proibiu que suas principais empresas de tecnologia comprassem chips da companhia, ao mesmo tempo que intensificou sua produção doméstica. 

Além disso, um projeto de lei em tramitação no Congresso dos Estados Unidos ameaça impedir que pesquisadores com qualquer vínculo com a China e outros países considerados hostis recebam recursos federais. O chamado Securing American Funding and Expertise from Adversarial Research Exploitation (SAFE) Act determinaria a perda de financiamento para qualquer cientista estadunidense que colaborasse com alguém “associado a uma entidade estrangeira hostil”, categoria que abrange China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Entre as atividades proibidas estão pesquisa conjunta, coautoria de artigos e a orientação de estudantes ou pós-doutorandos estrangeiros.

Se aprovado, o texto teria efeito retroativo: interações ocorridas nos últimos cinco anos poderiam tornar o pesquisador inelegível para financiamento federal daqui em diante.

No entanto, os achados do estudo publicado na PNAS contradizem a ideia de que os Estados Unidos conseguiriam afastar a China de oportunidades científicas globais simplesmente evitando colaborar. Na avaliação dos autores do trabalho, as parcerias entre os dois países, sobretudo em áreas como a de IA, tendem a ser mais bem-sucedidas do que iniciativas conduzidas de forma isolada.