Notícias
Instituto Butantan desenvolve vacina de dose única contra dengue
Aprovado pela Anvisa, novo imunizante será usado para proteger população de 12 a 59 anos a partir de 2026
Publicado em 10/12/2025 - Última modificação em 10/12/2025 às 13h06
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no último dia 26 o registro da Butantan-DV, vacina de dose única contra o vírus da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante será usado para proteger a população de 12 a 59 anos.
O Butantan diz ter 1,2 milhão de doses prontas. A expectativa é que a nova vacina seja incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) a partir do próximo ano.
A campanha começará por grupos prioritários definidos após análise técnica e perfil epidemiológico. Segundo o Ministério da Saúde, terão preferência os trabalhadores da atenção primária e adultos de 50 a 59 anos, começando pelos mais velhos e ampliando gradualmente para outras idades—a Butantan-DV ainda não está autorizada para gestantes, imunocomprometidos ou idosos.
Além das doses disponíveis, o Instituto Butantan firmou parceria com a empresa chinesa WuXi Vaccines para fabricar mais 60 milhões de doses da nova vacina nos próximos dois anos. Aproximadamente metade desse volume deverá ser entregue até o final de 2026.
A Butantan-DV utiliza vírus atenuados, capazes de se replicar, mas sem causar a doença. Seu desenvolvimento baseia-se no trabalho do microbiologista Stephen Whitehead, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), que, no início dos anos 2000, selecionou variantes atenuadas dos quatro sorotipos do vírus da dengue.
Há pouco mais de uma década, o Instituto Butantan firmou um acordo de licenciamento com os NIH para usar o protótipo da vacina criado pela equipe de Whitehead e desenvolver o produto final, liofilizado, para distribuição no Brasil e na América Latina.
A Butantan-DV foi avaliada por quase uma década em 10.259 voluntários de diferentes regiões do Brasil. Outros 5.976 participantes receberam uma substância inerte (placebo). Resultados anteriores, após 2 e 3,7 anos de acompanhamento, foram publicados nas revistas científicas The New England Journal of Medicine e The Lancet Infectious Diseases.
Os dados mais recentes indicam que a vacina atinge uma eficácia geral de 74,7% e de 91,6% contra a dengue grave, além de 100% de eficácia contra hospitalizações. Ou seja, nenhuma das pessoas vacinadas que foram infectadas e desenvolveram sintomas precisou ser hospitalizada.
“Para além da importância da Butantan-DV como ferramenta para auxiliar no combate à dengue, sua aprovação é um marco para a ciência nacional", destacou a neurologista Fernanda Boulos, diretora médica do Butantan. “Os estudos de fase 2 e 3 foram inteiramente feitos no Brasil, envolvendo centros de pesquisa vinculados ao sistema público de saúde. O conhecimento e as estruturas de pesquisa desenvolvidos a partir desses estudos fortalecem a capacidade do Brasil de executar estudos clínicos de ponta.”
Composta pelos quatro sorotipos do vírus da dengue, a Butantan-DV pode ser aplicada tanto em pessoas que já tiveram a infecção quanto naquelas que nunca foram expostas ao patógeno. Esses pontos representam avanços significativos em comparação às outras duas vacinas contra a dengue aprovadas pela Anvisa: a Dengvaxia, do laboratório francês Sanofi Pasteur, e a Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda.
A primeira só podia ser administrada em pessoas que já haviam tido dengue, o que inviabilizou sua inclusão no sistema público de saúde. A segunda pode ser administrada em pessoas que já tiveram dengue, mas não tem eficácia comprovada contra o sorotipo responsável pela dengue grave, que causa dor abdominal intensa, vômitos, dificuldade para respirar e acúmulo de líquido no abdômen ou no tórax.
A Qdenga também não está disponível em larga escala, dado que a empresa responsável por sua produção tem capacidade de fornecimento limitada. Além disso, são necessárias duas doses, o que dificulta a adesão ao tratamento—muitas pessoas que recebem a primeira dose não retornam para a segunda e acabam com proteção apenas parcial.
O Brasil registrou número recorde de casos e mortes por dengue em 2024: 6,6 milhões de infecções e 6.297 óbitos, segundo o Ministério da Saúde. O número de mortes confirmadas em 2024 ultrapassou o total de óbitos causados pela doença nos oito anos anteriores.
Na América Latina e no Caribe, foram mais de 12,6 milhões de casos documentados e mais de 8 mil mortes, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Argentina, Brasil, Colômbia e México responderam por 90% dos casos e 88% das mortes.
