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Fármaco contra hepatite B apresenta bons resultados em ensaios clínicos

Medicamento da farmacêutica GSK pode se tornar o primeiro capaz de promover “cura funcional” em uma parcela maior de pacientes com a doença.

Rodrigo Andrade
Pesquisador-bolsista no Ipea
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A farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK) anunciou no início de janeiro que seu medicamento candidato contra a hepatite B, o bepirovirsen — também conhecido como bepi —, apresentou bons resultados em dois estudos de eficácia de fase 3, considerados decisivos. Em comunicado divulgado em 7 de janeiro, a empresa informou ainda que, em breve, pretende solicitar a aprovação do fármaco às autoridades regulatórias.

Estima-se que cerca de 300 milhões de pessoas no mundo vivam com infecção crônica pelo vírus da hepatite B (HBV), a qual pode evoluir para cirrose, câncer de fígado e outras doenças, que, em conjunto, causam mais de 1 milhão de mortes por ano.

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A eliminação completa do vírus do organismo representa um desafio porque, assim como o HIV, o HBV integra seu DNA ao genoma humano. O patógeno apresenta ainda uma forma genética incomum, chamada cccDNA, que forma minicromossomos no núcleo das células e não é diretamente alvo de nenhum dos medicamentos atualmente disponíveis.

Por isso, pesquisadores há muito têm buscado uma “cura funcional”, isto é, um período finito de tratamento capaz de reduzir a carga viral a níveis suficientemente baixos para que o próprio sistema imunológico consiga controlar o patógeno.

Os medicamentos atualmente disponíveis conseguem inibir uma enzima essencial para a formação de novos vírus, mas promovem cura funcional em, no máximo, 1% dos pacientes. Eles também são inacessíveis para muitas pessoas em países de baixa e média renda e nem sempre conseguem impedir a progressão da doença.

O bepirovirsen, nesse sentido, pode se tornar o primeiro tratamento capaz de promover uma “cura funcional” em uma parcela maior de pacientes com hepatite B, permitindo que eles suspendam o uso diário de medicamentos.

O fármaco da GSK consiste em uma sequência de ácido nucleico que se liga ao RNA mensageiro do HBV, impedindo a produção de novas proteínas virais. Estima-se que ele também fortaleça a resposta imunológica contra o vírus, mas esse efeito ainda está em debate.

Em um estudo de fase 2b (focando em determinar a dose ideal e o regime de tratamento) publicado em 2022 na revista científica The New England Journal of Medicine, cerca de 10% dos participantes que receberam o medicamento em combinação com tratamentos já aprovados apresentaram níveis indetectáveis de DNA do HBV e de antígenos de superfície por pelo menos 24 semanas após o fim de todo o tratamento.

O bepirovirsen também causou poucos efeitos adversos graves.

Por sua vez, os dois ensaios clínicos de fase 3 controlados por placebo conduzidos pela GSK reuniram 1.800 participantes de 29 países. Todos faziam uso de medicamentos já aprovados contra o HBV. 

Nos grupos de tratamento, os pacientes receberam o bepi em combinação com essas terapias por 24 ou 48 semanas, enquanto os grupos de controle continuaram apenas com os fármacos existentes. Em seguida, todos os participantes interromperam o uso dos medicamentos contra a hepatite B.

Embora o comunicado da GSK não apresente dados detalhados, a empresa afirmou que os estudos “demonstraram uma taxa de cura funcional estatisticamente significativa e clinicamente relevante”, e que pretende submeter pedidos de aprovação regulatória em âmbito global antes de abril de 2026. 

Em reportagem publicada pela revista Science, pesquisadores demonstraram otimismo com a possibilidade de que o bepi consiga ajudar ao menos 10% dos pacientes a interromper o uso contínuo de medicamentos. No entanto, destacam que o acesso aos dados é fundamental para avaliar, por exemplo, a rapidez com que o vírus é suprimido no organismo, a durabilidade de longo prazo dessa supressão e os efeitos colaterais observados. 

Raymond Schinazi, pesquisador da Universidade Emory, nos Estados Unidos, que ajudou a desenvolver dois medicamentos contra a hepatite B disponíveis no mercado, espera que a GSK também forneça dados que expliquem os sucessos e fracassos do medicamento. “Eles precisam descobrir o mecanismo exato e explicar por que ele funciona bem em alguns pacientes, mas não em todos”, afirmou à Science.

Estudos anteriores indicam que a “cura funcional” ocorre com mais frequência em pessoas que iniciam o tratamento com níveis mais baixos de proteínas de superfície do vírus. A análise desses níveis antes do início do tratamento com o bepi pode ajudar os médicos a identificar quais pacientes têm maior probabilidade de alcançar uma cura funcional.

A GSK informou que pretende apresentar essas informações em artigo ainda a ser submetido a uma revista científica revisada por pares e em um próximo congresso científico, mas não divulgou detalhes sobre o cronograma.