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Reino Unido inaugura sua primeira usina geotérmica

Planta localizada na Cornualha entrou em operação após quase duas décadas de desenvolvimento; energia gerada deverá abastecer até 10 mil residências

Rodrigo Andrade
Pesquisador-bolsista no Ipea
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O Reino Unido inaugurou em fevereiro sua primeira usina geotérmica, introduzindo em sua matriz energética uma nova fonte de eletricidade renovável a partir de água quente subterrânea. Localizada na Cornualha, sudoeste do país, a planta entrou em operação após quase duas décadas de desenvolvimento, período em que a Geothermal Engineering Ltd (GEL) perfurou o poço mais profundo já realizado em território britânico.

A energia geotérmica aproveita o calor natural da Terra para gerar eletricidade e aquecer edificações de forma contínua e renovável. Para isso, recorre a perfurações profundas: quanto maior a profundidade, mais elevada a temperatura. Em níveis mais rasos, o calor já é suficiente para aquecer residências e empresas, o que já ocorre em algumas regiões do Reino Unido. Na Cornualha, porém, as perfurações atingiram quase cinco quilômetros de profundidade, onde as temperaturas chegaram a 200 °C.

Após a perfuração de poços profundos, fraturas na rocha granítica permitem a circulação da água, que absorve o calor e o converte em energia elétrica. Segundo apuração da BBC, esse processo acionará turbinas capazes de gerar eletricidade para cerca de 10 mil residências. É a primeira vez que esse tipo de projeto é realizado no Reino Unido, sobretudo porque a perfuração de poços tão profundos envolve desafios técnicos e custos elevados—a iniciativa na Cornualha já consumiu cerca de £ 50 milhões.

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A energia geotérmica é considerada estratégica para o Reino Unido porque não está sujeita às mesmas flutuações de preço do gás. Além disso, ao contrário de fontes como a eólica e solar, fornece eletricidade de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana.

No fim de 2025, o governo britânico nomeou Alan Whitehead como o primeiro ministro dedicado à energia geotérmica, sinalizando o crescente interesse do país no setor. A expansão hoje se concentra sobretudo na geotermia de baixa profundidade, devido aos custos mais baixos. Cerca de 30 mil residências no Reino Unido utilizam bombas de calor geotérmicas, com apoio de subsídios governamentais para reduzir os custos de instalação.

A usina de Cornualha também deve viabilizar o primeiro suprimento doméstico de lítio do Reino Unido, mineral estratégico para tecnologias verdes. Com a perfuração profunda, é possível alcançar salmouras ricas em lítio dissolvido. Uma vez extraídas, elas passam por um processo de extração direta, possibilitando a recuperação do mineral.

A expectativa é que o local produza inicialmente 100 toneladas de lítio, o suficiente para a fabricação de baterias para 1.400 veículos elétricos por ano. Mas a GEL afirmou que planeja aumentar sua produção para 18 mil toneladas anualmente.

Com o crescimento da tecnologia verde, somente o Reino Unido deverá ver sua demanda por esse mineral aumentar entre 12 e 45 vezes ainda nesta década, de acordo com o Serviço Geológico Britânico. O governo concedeu uma subvenção de £ 1,8 milhão, ou 50%, para cobrir o custo da extração inicial de lítio.

A energia geotérmica gerada na Cornualha será vendida à Octopus Energy, que a distribuirá pela rede nacional. A GEL planeja construir usinas geotérmicas em outros dois locais (ainda não divulgados).

Na Europa, os planos são ainda mais ambiciosos: os Países Baixos pretendem aquecer um quarto de suas residências com energia geotérmica até 2050. A Agência Internacional de Energia afirma que o investimento global em geotermia profunda para geração de eletricidade cresce 80% ao ano desde 2018, impulsionado, em parte, pela demanda crescente por eletricidade de grandes empresas de tecnologia para seus datacenters.